segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um Instante no Nosso Quintal

Minha Mãe, Dona Tarsilla, alí na esquina de casa, observando um arco-iris... Foto da minha irmã, Myrian Tereza.

Tradição significa trazer, entregar, ensinar, transmitir... É como uma semente que faz com que as coisas se perpetuem... É Natal?... Então vamos para Iguape, comemorar a data com a família. 




Já em casa, estava ali sentadão sozinho num lugar em que meu pai gostava de ficar, no quintal, embaixo de um beiral, sem nenhum saudosismo e com um olhar até que prático, observando alguns detalhes da casa, o telhado e o piso que estão bacanas, as plantas e a hortinha de Tarsilla, minha mãe; coisas normais como as paredes e os muros que vão precisar de uma tinta em breve, as janelas e portas que já estão pedindo um novo verniz e tudo mais que compõe aquele espaço especial e mágico que, como um palco antigo (quase 400 anos), ali pendurado no tempo, já foi e vai continuar sendo cenário de tantas coisas de nossas vidas... Quantos quintais familiares não são assim? Não é mesmo?... Tava ali tranquilão quando, de repente, quase caí da cadeira... 


Como se tivesse sido atingido por algo, algumas peças e detalhes daquele quintal saltaram à minha vista e formaram um conjunto único, identificável e familiar de coisas que até então estavam soltas por ali. Se destacaram balaios, redes, panelas, paredes antigas e outras coisas dali que trouxeram à minha consciência um tipo de confirmação do que eu já sabia... Sou mesmo um caiçara! E me orgulho dessa minha origem... Somos do cóvo, da canoa, do "robalínio", da vivóca, como eu digo às minhas irmãs... 

Dá uma olhada aí... 





Como se não bastasse esse “tapa”, levantei da cadeira e quando me virei para pegar outra cerveja, dei de cara com uns quadrinhos que minha irmã fez, colocou ali na parede e que já os li um montão de vezes, mas cada vez que a gente os lê, percebe de um jeito diferente. São coisas que meu pai escreveu, e neste está lá o seguinte texto de Dito Veiga... 

Para Tarsilla 

Veja, Tarsilla, esse vento lá fora, 
vergando gerânios vermelhos no jardim! 
É como as procelas da vida, embora 
não nos desalinhem a alma, tanto assim! 

Olha, daqui, querida, como as vidraças 
velhas, ao impacto do sul arquejam! 
Vivem nesses casarões de tintas baças 
amores tantos que no amor se arejam... 

A chuva que desce em goteiras pelo beiral 
a calçada cinza, longa, larga e nua 
embala meu sonho, engalana o vendaval 
com borrifos de prata em chispas na rua


Eita!... É hoje! Pensei... Mas o negócio ainda não tinha acabado. Virei um tantinho a cabeça e num outro quadrinho, também escrito pelo meu pai, tava lá o seguinte texto: 

Amigo, nossa casa também é sua! 

Aqui, fale com franqueza ao vento, ele levará e deixará ao longe, nas quebradas, todos seus lamentos ou talvez sua ufania. 

Adentre a floresta, iluminada pelo sol, e medite à beira das cascatas – elas sabem de você e de suas origens; vá acolá e ame o mar – ele o envolverá na alvidez de suas espumas, no buliço de seu marulho e na quietude ou no vigor de suas águas e consentirá que você repouse em suas praias nuas e ensolaradas. 

À noite, com todo seu arrebatamento de mortal, contemple estes céus sem fim e confie à lua, às nuvens e às estrelas algo que você esqueceu de falar ao vento – elas jamais dirão a alguém. 

Ao final de tudo, creia em Deus! Foi ele quem fez tudo isso e permitiu que você estivesse hoje aqui, conosco. 

Quando você quiser. Volte! 

Respirei fundo, me aprumei e, já pensando em trocar a cerveja por uma cataia, só agradeci a Deus por tudo... e dava para fazer outra coisa?... 


... Pai, as andorinhas ainda continuam vindo lá dos lados da Igreja do Rosário, fazendo aquele vanzeiro por cima dos telhados... alegrando nosso quintal no final da tarde... 


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Palmito com Arroz

Crédito da Foto: As Gastronômicas
Somos privilegiados! Várias palmeiras no Brasil produzem palmitos comestíveis como o Açaí, Pupunha, Juçara entre outras. A espécie mais apreciada por sua maciez, sabor e aparência é o Euterpe edulis, conhecido palmito juçara ou jiçara, que produz o delicioso palmito branco.


SOBRE A JUÇARA

A Juçara (Euterpe edulis) pertencente à família das palmeiras e ao gênero Euterpe, do qual fazem parte 28 espécies encontradas entre as Antilhas e a América do Sul. Aqui no Brasil pode ser encontrada na Mata Atlântica do sul da Bahia até o norte do Rio Grande do Sul.

É uma espécie que gosta de sombra, principalmente em sua fase jovem, e necessita da proteção de uma cobertura florestal para o seu desenvolvimento. Se desenvolve muito bem em solos úmidos com uma boa camada de material orgânico em decomposição. Depois de crescida, precisa de sol. Um ambiente típico de mata nativa.

Os palmitos são extraídos de palmeiras com idade entre 7 e 9 anos, retirando-se o miolo da palmeira, o estipe (parte verde entre o troco e as folhas). O estipe da juçara permite até 6 cortes diferentes, alguns mais macios, outros mais fibrosos. O primeiro e o segundo cortes são considerados os mais macios.

O palmito possui 5% de carboidratos e 2% de proteínas, além de ser uma fonte razoável de minerais com cálcio, fósforo e ferro. Ele ainda fornece pequenas quantidades de vitaminas C e do complexo B. 100 gramas de palmito fresco tem 26 calorias e cerca de 90% de sua composição é água. 

O corte do estipe para a extração do palmito significa a morte da planta, fato que já causou seu desaparecimento em algumas áreas e sua quase extinção em outras.

A Importância Ecológica da Juçara 

A Juçara garante a fantástica biodiversidade da Mata Atlântica, uma vez que suas sementes e frutos servem de alimento para diversos animais, como tucanos, sabiás, macucos, periquitos, maritacas, jacus, jacutingas, porcos do mato, antas, ratos-de-espinho, esquilos, tatus e capivaras.

A falta da Juçara nas matas nativas afeta diretamente estes animais e todos os delicados relacionamentos ecológicos envolvidos, a medida que sua frutificação entre o outono e o inverno, quando a maioria das outras árvores está sob estresse hídrico devido ao período de seca e não produzem sementes ou frutos. A Juçara nativa é um alimento essencial nesta época de escassez, garantindo a continuidade das espécies.

Da Exploração Desenfreada à Proibição da Extração

A partir da década de 70 a Juçara foi intensamente explorada, tornando-se a principal fonte de renda das inúmeras comunidades da Mata Atlântica. Sem orientação e nenhum plano de manejo adequado, o corte do palmito nativo entrou em colapso e levou a Juçara a entrar em risco de extinção. Hoje a extração de palmito nativo é proibida por lei e seu corte só é permitido em áreas de manejo sustentável.

Entretanto, o excesso de exigências impostas pelos órgãos governamentais para a implantação de reservas de exploração sustentável, tornou a atividade legalizada, impraticável e hoje existem apenas duas reservas de manejo sustentável de Palmito Juçara no Brasil.

As leis ambientais, de certa forma justificadamente, radicalizam as proibições devido a grande destruição causada anteriormente. Por outro lado, ninguém foi capaz de diagnosticar, regularizar e orientar a exploração deste e de um monte de outros recursos naturais antes deles terem sido quase extintos. É como querer colocar uma tranca depois da porta ter sido arrombada, resultado da falta de um monte de coisas como percepção, investimentos, planejamento, eficiência e por aí vai...

Penso que estas leis ambientais radicais são contraditoriamente antiecológicas, à medida que limitadamente focam somente o bioma ou a espécie afetada e não consideram as comunidades tradicionais envolvidas. Estas comunidades também fazem parte do sistema ecológico mais amplo onde estão inseridas e o impacto gerado pelas limitações impostas legalmente as afetam diretamente, alterando seu equilíbrio.

Ao deixar as comunidades tradicionais limitadas e com alternativas econômicas reduzidas, infelizmente uma combinação de descaso, ganância, necessidade, falta de escrúpulos e de visão ecológica, conduzem ao caminho da ilegalidade. Muito palmito ainda continua sendo extraído de áreas protegidas, unidades de conservação e até roubado de propriedades particulares.

Hoje existe a opção do Palmito Pupunha, espécie amazônica cujo cultivo é mais viável econômica e ecologicamente. Polêmicas a parte e sabendo disso tudo, preste atenção! Ao comprar seu delicioso palmito, certifique-se que ele é produzido de forma legal, originado de plantações de manejo sustentável e não colhidos diretamente de matas nativas. Beleza?!


RECEITA

Fácil | 20 a 25 minutos | 4 a 6 porções

INGREDIENTES

Palmito Fresco
Crédito da Foto: Agrosoft

1 palmito fresco limpo, cortado em rodelas
2 colheres de sopa de óleo
2 dentes de alho picados
1 cebola pequena picada
6 a 7 xícaras de água fervente
3 xícaras de chá de arroz lavado e escorrido
4 colheres de sopa de cheiro verde picado
Sal a gosto

Nota: Se você quiser pode substituir o palmito fresco por um vidro de palmito (500g) lavado e escorrido.

Dica: Se você quiser incrementar o negócio pode acrescentar umas 300g de camarão descascado, ou umas 500g de mariscos frescos com casca, ou 300g de mariscos frescos sem casca, ou umas 300g de ostras limpas e, é lógico, sem casca, ou umas 500g de pegoavas, bem lavadas com casca... Inventa aí! Vai ficar bom com certeza!

Você Vai Precisar

Uma panela com tampa
Uma travessa para servir

PREPARO

Coloque o óleo em uma panela e aqueça em fogo alto. Junte a cebola e o alho e refogue mexendo por alguns minutos. Acrescente o palmito e refogue mexendo sempre por uns 5 minutos.

Acrescente uma xícara de água, reduza o fogo, tampe a panela e cozinhe, mexendo de vez em quando, por 10 minutos.

Adicione o arroz, a água restante e coloque sal a gosto, misture, tampe parcialmente a panela e cozinhe até o arroz ficar macio. Tire do fogo e deixe descansar por uns 5 minutos.

Crédito da FotoGordelícias
Passe para uma travessa salpique com cheiro verde e sirva. Delicioso sozinho, esse arroz também acompanha maravilhosamente bem peixes assados e fritos, carnes, frutos do mar, etc. Crie!


Crédito da FotoPetiscos
Deleite-se!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Famosão Marisco Lambe-Lambe

Crédito da Foto: Prefeitura de Caraguatatuba 
O Lambe Lambe é um prato caiçara famoso, simples e delicioso, preparado e apreciado por quase todo o litoral desse nosso imenso país. Precisar sua origem não é fácil, mas é um exemplo perfeito da mistura entre os hábitos de colonizadores portugueses, de indígenas e até de piratas espanhóis que já tinham o costume de cozinhar arroz com frutos do mar. É isso aí...Preparar um prato caiçara é como colocar a mão na história. 

Imaginar a combinação de ingredientes é fácil... Os mariscos já estavam lá no mangue ou nos costões há alguns milênios, os temperos já eram cultivados ou colhidos pelos indígenas, já o arroz foi introduzido e cultivado, em particular no Litoral Sul paulista, vindo inevitavelmente a fazer parte da dieta caiçara. 

Um Parênteses Sobre o Arroz de Iguape 

O arroz foi introduzido na região do Rio Ribeira de Iguape em meados do século XVIII e final do século XIX. Era tão bom e apreciado que em abril de 1911 o Município de Iguape, representando o Brasil na Primeira Exposição Internacional de Turim na Itália, conquistou o Diploma de Honra Internacional de Melhor Arroz do Mundo. O ciclo do arroz de Iguape vale uma postagem especial. 

Diploma de Honra de Melhor Arroz do Mundo Recebido pelo Município de Iguape-SP 

Crédito da Foto: Luciano Faustino

Naquela época, o cultivo do arroz era feito em grandes fazendas e também por famílias em inúmeras pequenas propriedades. Ainda hoje, em algumas propriedades, comunidades tradicionais caiçaras e quilombolas, podemos encontrar o arroz sendo plantado após a coivara (preparação do terreno), com a ajuda do chuço (uma vara pontiaguda) e colhido a canivete. 

Depois de colhido, o trabalho de “batimento” do arroz é transformado em festa quando o proprietário convida seus vizinhos para, ao som dos tambores e rabecas, dançar o Fandango por cima dos cachos de arroz para debulhá-los... histórias para outras postagens.

No Lambe Lambe o arroz é bem temperado e cozido com o marisco ainda na casca. Durante o cozimento os mariscos se abrem soltando seu delicado sabor, enquanto o delicioso arroz invade e preenche as conchas resultando num prato maravilhoso. O Lambe Lambe se come com as mãos e vamos lambendo as conchas para retirar dali o arroz e os mariscos. É de lamber os dedos e tirar qualquer "aiveza" do vivente... Desta forma de comê-los vem o nome do prato.

Fontes: Iguape... Nossa História – Roberto Fortes / Falares Caiçaras, Enciclopédia Caiçara, Vol 2. - Paulo Fortes Filho e Cultura Caiçara - Antonio Carlos Diegues, antropólogo, Nupaub – USP.

A RECEITA

Facilzinho| 1 hora | 4 a 6 pessoas

INGREDIENTES

1 kg de mariscos frescos, grandes e com casca
2 xícaras de arroz branco cru
Umas 4 xícaras de água fervente ou de caldo de legumes, se preferir
½ xícara de azeite ou o quanto baste
3 dentes de alho socados
2 cebolas picadas
4 tomates maduros picados
1 pimenta dedo de moça sem semente picada
2 xícaras de salsa, cebolinha, coentro e alfavaca picados juntos


Opções: Você pode acrescentar um pimentão sem pele picado de qualquer cor, ou uma xícara de pimentões de várias cores; você também pode colocar 1 garrafa, ou 2 latas de cerveja, ou ainda uns 500 ml de vinho branco seco na hora de colocar a água ou o caldo de legumes; Acrescente alguns camarões e deixe o negócio chique... Você que manda!

Dica 1: Os melhores mariscos, na verdade os menos trabalhosos, são os do mangue. Para distinguir os mariscos de mangue dos do mar basta observar as cascas. Os mariscos do mar têm as cascas cheias de cracas (que parecem pequenos vulcões), enquanto que os de mangue têm a casca lisa.

Marisco das Pedras
Crédito da Foto: HGomes - Fotodependente

Dica 2: Para limpar os mariscos do mangue é só lavar bem a casca, com uma esponja limpa. Já para limpar os mariscos de mar raspe bem as cascas retirando todas as cracas. Elas podem trazer do mar algumas impurezas que podem contaminar e amargar o prato, além prejudicar sua apresentação e consumo. 

Mariscos e a tal da Craca
Crédito da Foto: Tertúlia de Sabores

Dica 3: Ao comprar ou coletar os mariscos preste atenção. Os mariscos, assim como as ostras, entre outros moluscos, se alimentam filtrando a água onde vivem. Se a água estiver poluída, o marisco muito possivelmente estará contaminado. Os mariscos bons devem ter cheiro de água do mar e as cascas devem estar fechadas. Se o marisco já estiver aberto é sinal que já está morto e começando a se deteriorar. Descarte-os, assim como os que estiverem com a concha quebrada.

Nota: O marisco, tanto no mangue como nas pedras, vive em uma área entre marés e é capaz de permanecer vivo por um bom tempo mesmo fora da água. Na natureza com a maré baixa ele se enche de água, fecha suas conchas e assim se mantém vivo até a próxima maré cheia.

Você vai Precisar

Uma panela grande com tampa.

PREPARO

Antes de limpar os mariscos deixe-os imersos por cerca de 2 horas em bastante água limpa para que solte a areia que geralmente há dentro deles, trocando de água umas duas vezes. Se algum marisco abrir a casca neste processo, descarte-o. Escorra-os e limpe-os bem tirando toda a "barba" e escovando a casca. Se tiverem cracas remova-as raspando com uma faca pequena. Reserve.

Dica: Outra forma de limpar os mariscos é lavá-los bem em água corrente, esfregá-los e depois colocá-los em um recipiente com água e limão espremido. O limão ajuda a fazer o marisco expelir a areia. 


Em uma panela grande, aqueça o azeite, acrescente o alho, depois a cebola e refogue. Acrescente os tomates, o pimentão (se você escolheu usá-lo). Misture tudo e refogue por alguns minutos.

Coloque o arroz e refogue até perceber que ele está bem seco, acrescente a água ou o caldo de legumes. Se for utilizar a cerveja ou o vinho branco, essa é a hora de colocá-los. Quando começar a ferver abaixe o fogo e coloque os mariscos. Acrescente a maior parte dos temperos verdes reservando um pouco para finalizar o prato. Mexa com muito cuidado somente para misturar os ingredientes. Mexer demais pode soltar os mariscos das conchas.


Deixe cozinhar até que o arroz fique mole e úmido. Se algum marisco não abriu, descarte-o. Coloque o restante dos temperos verdes que você reservou, um pouco de azeite e misture com muito cuidado. Tampe a panela e deixe descansando por uns 5 min. Logo depois, sirva.

Crédito da FotoExpedição Massaguaty

LAMBUZE-SE !

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Aquela Caranguejada Que Nos Une

Crédito da Foto: Papjerimum

A Caranguejada é mais que um delicioso prato caiçara, prepará-la e degustá-la é como um ritual capaz de causar um “ajuntório”, unir as pessoas. Dificilmente se come uma caranguejada sozinho, ela parece ter sido criada para ser compartilhada, reunindo, conectando e divertindo os que se “abancaram” em volta daquele panelão fumegante.


Já o danado do caranguejo há muito tempo deixou de ser apenas um crustáceo que vive no mangue e nos serve como alimento, para tornar-se protagonista de várias expressões da antropologia e da cultura litorâneas, além de ser a base da economia de muitas comunidades do nosso extenso litoral.

Cheio de simbologia, o caranguejo é signo, é nebulosa estrelar, é bloco carnavalesco, é filosofia, é educação ambiental, é música, é movimento cultural, é ponto de crochê, é tema de um monte de coisas, é nome de ilhas, praias, comunidades, institutos, bares, restaurantes e afins, e até já foi “visagem”, com as devidas velas acessas no casco, lá na Praça da Basílica em Iguape.




Em outros países e culturas o caranguejo é considerado uma figura mítica ligada a gestação, ao aparecimento do homem na terra, a presença do sol, ao movimento da terra, as primeiras águas do mundo, a sonhos, a imaginação, a força de vontade, a sensibilidade, entre outras expressões humanas e da natureza.

Ao preparar e sentar para comer uma Caranguejada devemos quase que reverencia-la. Abrir aquela cerveja bem gelada para molhar o “gorgomilho” e compartilhá-la com a “falilhagem” e com as pessoas que gostamos, em meio a um bate papo descontraído, gostosas histórias e boas risadas.... Isso já é um bom começo!

RECEITA

Fácil | 1 ½ hora | 3 a 6 porções. Depende da habilidade e da fome dos viventes.

INGREDIENTES

12 caranguejos inteiros vivos e limpos... “De preferência aos interinhozinhos e pescados dejaoje”
5 colheres (sopa) de óleo ou azeite
3 cebolas picadas
4 dentes de alho picados
6 tomates maduros picados
1 maço cheiro verde
Alfavaca e coentro de folha larga a gosto
Sal a gosto
Aquela sua pimenta a gosto

Nota: Tem gente que gosta do caranguejo limpo sem a carapaça, eu gosto com a carapaça, pois além de guardar todo o sabor do caranguejo, na hora de comê-los dá para fazer um pirãozinho dentro dela com o molho, uma boa farinha e aquela pimenta. Fique à vontade a caranguejada é sua!

Dica 1: Compre os caranguejos inteiros e vivos. Dispense os caranguejos mortos. Se você preferir os caranguejos sem as carapaças, compre-os de um fornecedor confiável.

Dica 2: Se quiser acrescente cerveja, o quanto baste para cobrir os caranguejos substituindo parte da água que iria colocar.

Dica 3: Se você achar legal pode acrescentar um pimentão picado. Alguns gostam de colocar uma lata pequena de extrato de tomate, eu já gosto mais de colocar tomates bem maduros.

Você Vai Precisar

Uma panela grande com tampa
Um conjunto de tábuas e martelos para quebrar as pinças e patas.


PREPARO

Mate os caranguejos (se você preferir diga que vai abater os caranguejos, é politicamente correto e não assusta mulheres e crianças, mas no final dá no mesmo... hehehehe) e lave-os muito bem em água corrente com uma escova até tirar todas as impurezas e reserve.

Dica 1: Para "abater" os caranguejos, segure-os pelas costas, usando uma faca pequena de lâmina, levante uma parte que parece uma tampa na barriga do caranguejo (alguns retiram esta “tampa” e defendem que entra mais molho no caranguejo, e outros não a tiram e defendem que preserva mais o sabor do caranguejo. Você que sabe!) e introduza a faca no meio até alcançar o fim do casco. Outros abatem o caranguejo introduzindo a faca na boca do caranguejo, até alcançar o fim do casco. Seja como for, aguarde alguns minutos, até que esteja totalmente abatido.

Dica 2: Se você preferir o caranguejo sem os pelos, limpe-os usando uma faca de lâmina pequena para raspar os pelos.


Em uma panela grande aqueça o azeite/óleo, doure as cebolas e o alho. Aqui não invente moda ou economize espaço, a panela tem de ser grande mesmo.  Nela devem caber os caranguejos, todos os outros ingredientes e ainda sobrar um tanto.

Coloque em seguida os tomates e deixe refogar bastante, mexendo sempre.

Coloque o sal, a pimenta e um pouco de água.

Quando estiver fervendo bastante, coloque os caranguejos e o cheiro verde picado. Se for usar a cerveja essa é a hora de derramá-la na panela até que os caranguejos estejam totalmente cobertos, se não for usar a cerveja cubra-os com água.

Verifique o sal e mexa um pouco o caldo para misturar os temperos colocando a colher entre os caranguejos e deixe cozinhar com a panela meio tampada por uns 35 minutos.

Para conferir o cozimento do caranguejo, retire uma patinha e prove, observando se a carne solta com facilidade. Estando legal... Sirva-a!


Caranguejada aqui em casa....
Reúna sua família e/ou seus amigos e divirta-se!



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pastel de Pegoava



Crédito da Foto: Cozinha Regional Brasileira - Abril Coleções


Dificuldade média | 20 a 30 minutos | 12 a 15 pastéis pequenos

INGREDIENTES

Para a Massa

2 xícaras de chá de farinha de trigo
2 colheres de sopa de óleo
1 colher de sopa de cachaça
1 colher de sopa de vinagre branco
1 colher de chá de sal
1/2 xícara de chá de água morna
Óleo para fritar

Para o Recheio
As Pegoavas
(Donax hanleyanus)
Crédito da Foto: Conchas Brasil

500g de pegoavas limpas, sem casca e aferventadas.
2 tomates maduros picados
2 cebolas médias picadas
2 dentes de alho picados
1 xícara de chá de alvafaca, ou coentro de folha larga picado, ou uma mistura dos dois
Azeite de oliva a gosto
Sal a gosto


Você Vai Precisar

1 tigela funda
1 superfície enfarinhada para preparar a massa e abri-la
1 panela com tampa para fazer o recheio
1 frigideira ou tacho para fritar os pastéis
1 escorredor forrado com papel absorvente

PREPARO

Fazendo a Massa

Em uma tigela funda, misture a farinha e o sal. Junte o óleo, a cachaça e o vinagre, nessa ordem. Adicione a água morna e amasse com as mãos até dar liga. Quando a massa desgrudar totalmente das mãos e da mesa, está no ponto certo. Reserve.

Dica: Se você guardar esta massa da geladeira de um dia para o outro, seus pastéis vão ficar mais crocantes e sequinhos.

Dica 2: Se você achar melhor e mais prático use uma massa pronta para pastel. Você pode achar em qualquer supermercado ou pasteleiro.

Fazendo o Recheio

Em uma panela aqueça o azeite, refogue o alho, a cebola e os tomates bem. Em seguida adicione as pegoavas, acrescente a mistura de alfavaca e coentro de folha larga. Refogue por uns 5 minutos. Desligue o fogo, misture bem e deixe esfriar. Reserve.

Montando os Pastéis

Abra com um rolo em uma superfície enfarinhada até que fique nem muito fina nem muito grossa, corte no formato e tamanho que você quiser os pastéis.

Coloque o recheio no centro, fechando bem as bordas para que não abra na hora de fritar. Você pode umedecer as bordas e pressionar com a ponta de um garfo.

Frite os pastéis um a um ou em pequenas quantidades, dos dois lados. Deixe-os no escorredor forrado com papel toalha para retirar o excesso de óleo e sirva-os.





Aproveite!

A Versátil Paçoca de Carne Seca




A Paçoca de Carne Seca é um prato de origem indígena – pa`soka em tupi - eles tinham o costume de fazer a paçoca misturando farinha de mandioca com outras sementes, raízes, carnes e temperos. Devido a sua praticidade, durabilidade, fácil transporte, versatilidade e sustância a paçoca foi muito utilizada também por bandeirantes, tropeiros, garimpeiros, etc., que a guardavam em cestos, baús e embornais e a levavam em suas viagens e aventuras e, desta forma, se difundiu por todo país.

Assim como a farinha de mandioca, a carne seca era tão importante nessa época colonial que o dito popular “Estar por cima da carne seca” significava estar bem de vida, em uma situação próspera.

Até hoje os pilões podem ser ouvidos preparando a paçoca em comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras, onde é apreciada com banana fresca ou com banana da terra cozida, e ainda como uma farofa encorpada que pode acompanhar diversos pratos típicos.


Crédito da Foto: Sabores de Mato Grosso

RECEITA

Dá um trabalhinho, mas é fácil | cerca de 1 hora | 8 a 10 porções.

INGREDIENTES

1kg de carne seca
Um eito (certa quantidade) de farinha de mandioca artesanal (manema, branca, etc.). O quanto baste para dar o ponto.
1 maço de cheiro verde
1 cebola picada
2 dentes de alho picados
1 pimenta vermelha fresca (dedo de moça)
1 colher de sopa de gengibre ralado, se você gostar
1 xícara de óleo

Você Vai Precisar

1 panela de pressão
1 frigideira
1 panela de ferro
1 pilão de madeira e 1 mão de pilão pesada e arredondada nas pontas.

PREPARO

Dessalge a carne deixando-a de molho de um dia para o outro, trocando a água de vez em quando.

Corte a carne em cubos não muito grandes e cozinhe em uma panela de pressão por uns 20 minutos.

Acrescente a cebola, o cheiro verde e a pimenta vermelha sem as sementes. Coloque numa frigideira com uma colher (sopa) de óleo e refogue. Reserve.

Escorra bem a carne seca e frite-a em uma panela de ferro até ficar bem torradinha. Quando estiver bem frita jogue os temperos refogados e mexa. Desligue o fogo e reserve.

Jogue um punhado de farinha de mandioca no pilão, alguns pedaços de carne seca misturada aos temperos, mais um punhado de farinha e vá pilando (socando).

É uma foto bonita, mas não a use como
referência na hora de socar a paçoca.
Crédito da Foto: Encantos do Serrado

Dica: Nem todo mundo tem um pilão, certo?  Então você pode fazer a paçoca em um processador ou em um liquidificador usando a função pulsar. Quebra o galho! Você não tem desculpas para deixar de se deliciar com essa paçoca.

À medida que a carne desfia e se mistura a farinha, coloque mais carne e mais farinha. Prove a consistência da paçoca para que não fique nem muito molhada, nem muito seca (tá fácil heim?!). O ponto ideal é quando está úmida e a carne bem desfiada.

Sirva com banana fresca, banana da terra cozida ou assada, ou ainda como acompanhamento, na função de uma farofa.

Dica: Dura um bom tempo fora da geladeira em uma lata ou vasilha fechada e bastante tempo dentro da geladeira, podendo ser congelada também.


Divirta-se!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Esse Nosso Oceano...

Uma homenagem a meus avós Antonio e Orlinda; a meus pais Dito Veiga e Tarsilla; a minhas irmãs; a meus tios Celso Veiga, Mingo, Zulmirinha, Maneco, Dito Lula, Ernesto, Donga, Nitinho e Nesi; a meus primos Antoninho, Minguinho, Magno, Zé Rubens, Cláudia, Tchelo e mais uma grande duma turma; a Genésio, Amâncio, Gregório, Hilário, Rosalino e tantos outros caiçaras, como eu, que amaram e amam o mar...

Tarsilla e Dito, meus pais...
O Oceano sempre alí, ao alcance das mãos, dos olhos e do coração... 
Os homens sempre viram nos mares e oceanos um paradoxo da natureza. Fonte de vida e ao mesmo tempo uma terrível força destruidora, os mares e oceanos são simultaneamente uma barreira e um caminho, separando e unindo a humanidade. Muitos cantaram sua beleza e também manifestaram espanto ante a fúria de suas investidas ou o mistério de suas profundezas. O mar nos encanta, nos inspira, mexe com os nossos mais profundos sentimentos.


Este mundo de águas que cobre dois terços do planeta nos gera uma curiosidade quase genética, um impulso apaixonado que nos move em direção a superação de nossos próprios limites para a exploração de seus mistérios. À medida que se amplia a consciência que o homem tem de seu próprio mundo e do universo, fica mais clara a noção de que o mar não apenas fornece muitos meios para nosso sustento, como também assegura nossa própria existência.

O que chamamos de vida surgiu no mar, foi aí que se originou a matéria prima básica de todos os seres vivos há alguns bilhões de anos, porém, de que maneira o mar produziu vida não sabemos dizer com precisão. Em suas águas aquecidas, vagamente iluminadas, as condições desconhecidas de temperatura, de pressão e de salinidade devem ter se constituído nos elementos críticos para a criação da vida a partir de elementos sem vida.


De algum modo o mar produziu algo que nem os alquimistas, com seus cadinhos, nem os cientistas com seus mais modernos equipamentos e seus mais elevados conhecimentos conseguiram obter, moléculas complexas de aminoácidos que tiveram a habilidade de se reproduzir e principiar o fluxo infindável da vida.

A vida, como a conhecemos, existe apenas dentro de uma faixa estreita de temperaturas. Embora alguns seres consigam sobreviver nas regiões mais geladas da Terra, e apesar de existirem organismos simples vivendo confortavelmente nas águas muito quentes das fontes termais e das “chaminés”, fissuras e fendas de vulcões submarinos, os limites de temperatura que a matéria viva suporta coincidem com os limites de temperatura dentro dos quais a água existe em estado líquido.


Isto não chega a ser uma surpresa, pois todos os seres vivos não apenas usam água, mas também são em grande parte constituídos de água. Setenta por cento do corpo humano é constituído de água, 1/3 da qual se encontra no sangue e nos outros fluídos do organismo, e 2/3 dentro de nossas células. Além disso, a composição química do sangue humano é muito próxima à da água do mar. No sangue se encontram todos os elementos presentes no mar, embora em proporções diferentes.

É o mar que preside todo o sistema natural que constitui o meio ambiente do homem e também é ele, mais do que qualquer outra característica física do nosso planeta, que dá lhe singularidade. Se em algum ponto do espaço um astrônomo extraterrestre se dispusesse a estudar nosso sistema solar, provavelmente chamaria de Oceano nosso planeta e não de Terra. O que mais o impressionaria, distinguindo-o dos demais satélites do Sol, seria a vasta e brilhante camada de água que cobre permanentemente dois terços do globo. Nenhum outro mundo ao alcance de nossa visão e de nossos mais sofisticados equipamentos possui um oceano semelhante.

Créditos da Imagem: Google Earth

Nosso planeta, contudo, apresenta-se quase inteiramente submerso. Apenas 29% de toda a crosta terrestre se eleva acima dos grandes oceanos que escondem todo o restante da superfície sob uma camada líquida cuja espessura média chega a 3.900 metros. Quatro vezes e meia a altitude média dos continentes. O hemisfério norte é constituído por 50% de água e o hemisfério sul por 90%. Estas águas são os oceanos Índico, Ártico, Antártico, Atlântico e Pacífico. Divisão apenas teórica, educativa, já estes oceanos estão unidos e a água circula livremente por eles tornando os continentes, meras ilhas em um vasto oceano.


97% da água do planeta está nos oceanos. Se todas as massas sólidas – continentes, ilhas e montanhas - pudessem ser arrancadas de seus fundamentos, deslocariam somente 1/18 do volume total de água das bacias oceânicas. E, se todas as irregularidades da crosta terrestre pudessem ser aplainadas, transformando o planeta em uma esfera lisa, os mares e oceanos submergiriam completamente o globo em uma camada de água com aproximadamente 2.600 metros de profundidade.

Todas as águas que correm sobre a terra firme originaram-se do mar e dele provêm diariamente. As grandes bacias oceânicas do planeta contêm cerca de 1.200 milhões de quilômetros cúbicos de água salgada. A evaporação retira anualmente 320 mil quilômetros cúbicos desse grande reservatório. Esse volume de água retorna sob a forma de chuvas que alimentam os rios e terminam por desaguar novamente no mar. Mais de 100 mil quilômetros cúbicos de chuva caem anualmente sobre os continentes, reabastecendo de água doce os lagos, rios e fontes dos quais dependem todos os animais e plantas existentes sobre a Terra.


Podemos dizer que o futuro da humanidade está no mar, com seus imensos recursos ainda basicamente inexplorados e em grande parte desconhecidos. Sem sombra de dúvida os oceanos ajudarão a decidir se nosso planeta continuará ou não habitável.

Ao lado do grandioso desafio que representa o desenvolvimento racional e sustentável da exploração dos recursos dos mares e oceanos, surge a necessidade urgente de impedir que a devastação ecológica disseminada pela moderna sociedade industrial atinja irremediavelmente os oceanos. Já degradamos o meio ambiente de baías, estuários, manguezais, golfos, e grandes regiões costeiras, impossibilitando que a vida se manifeste com toda sua intensidade e diversidade natural.


No momento em que nos voltamos para o oceano como fonte de vida, e não simplesmente de recursos, poder e aventura, o homem é obrigado a conhecer melhor esta imensidão de águas e a assumir seu dever de preservá-lo de si mesmo, para não ser destruído junto com ele. Mesmo com todos nossos conhecimentos, com todos nossos instrumentos e com toda nossa tecnologia, ninguém é capaz de dizer que algum dia chegaremos a esclarecer todos os últimos mistérios do oceano.


Os ventos que sopram sobre a Terra foram embalados na ampla extensão dos oceanos e buscam sempre para lá retornar. Os continentes se dissolvem e ao oceano se juntam, grão a grão de terra erodida. As chuvas do oceano se erguem e voltam de novo para ele na forma de rios. A vida teve nele suas vagas origens e talvez a ele retorne após várias transmutações. O oceano, como o eterno fluir do tempo, talvez seja de um só modo o começo e o fim...


Inspirado no Livro, "O Mar Que Nos Cerca" de Rachel L. Carson
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